domingo, 22 de abril de 2012

e o dia em que eu não tiver talvez eu invente outros

Um dia eu fiz das tripas coração, e você o retalhou até voltar às tripas. Um dia eu acordei feliz e tive que me conter, você não gosta de me ver feliz. No outro, eu acordei com o olho roxo, a boca inchada, e novamente o coração retalhado. Cada vez mais. É possível?
Diziam que não seria fácil, que eu desistiria. Oras, como desistir? Ora bom ora ruim, mas o bom é tão bom, como desistir?
Eu tentei não acreditar nos covardes que desistiram no meio, tentei não ouvir suas explicações (plausíveis, eu admito) do porque. Eu tento até hoje. Será que vou conseguir? Eu não sei, e não me importa saber. No momento eu tento, no momento eu levanto, mesmo com as pernas quebradas, eu vou correr. E não importa como, desde que eu tenha meus motivos intactos.

eu decido que não é isso que quero

Um milhão de analogias, meio de palavras não compreendias, um terço de brigas sem fim e um quarto escuro, frio e depressivo.

porque de vez em quando é muito bom matar

Colocou a música para tocar, aumentou moderadamente o volume e apagou às luzes. A janela estava entreaberta em conjunto com a cortina, deixando apenas uma fresta para a luz e o vento entrarem. Lá fora chovia e fazia frio. Dentro, estava perfeito. Soltou os cabelos e os balançou devagar, deixando-os ajeitarem-se naturalmente. Foi andando lentamente em direção ao quarto e parou na soleira da porta enquanto observava ao homem em sua cama. Sorriu presunçosamente e entrou no quarto. Encostou, com carinho, seus lábios nos dele, acariciou-lhe a bochecha - Eu te amo. - sussurrou. Levantou-se novamente, pegou o celular. - Pode vir buscar o corpo. -. Saiu do quarto, passou pela cozinha pegando seu copo de vinho, aumentou o som e ficou à observar a paisagem pela fresta da janela ao lado do toca discos.

O excêntrico que o é naturalmente, me é interessante.

Meu interesse não está no fácil, nem no difícil. Está no exótico, no que, anos atrás, seria o normal. Meu interesse está no brega, no cafona e no piegas. Eu não me interesso quando você está assim, tão interessado, tão cheio de charme, tão cheio de si e de segredos incontáveis. Eu me interesso pela sua bobeira, pela sua naturalidade, seu olhar perdido no nada. Não me interesso por literatura, mas também não sou muito chegada no popular de hoje em dia. Eu me interesso pelo que faz pensar, o que me faz repensar. Eu não me interesso por mim, eu me interesso por aquela que aparece de vez em quando, ligeiramente sorridente, sorrateiramente excêntrica. É isso.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

e eu estou cansada de me dizerem que não posso andar pelada na rua, falar palavrão e não pentear o cabelo.

Eu só quero um tempo para poder pirar. Uma hora de gritaria, correria e histeria. Um minuto de puro descontrole. Eu quero um cabelo mais bagunçado que o normal e o pijama substituindo a calça jeans, por um dia. Eu quero a quebra de algumas regras, eu quero esquecer o horário. Quero esquecer de quem sou e porque sou. Esquecer do depois, e das consequências. É isso mesmo, eu preciso disso, se eu não tiver esses momentos de pura liberdade descontrolada eu piro completamente e sem volta.
Eu quero mandar as regras para puta que pariu, pensar por um segundo que se elas existem é porque temos o direito de quebrá-las. E não, eu não vou me importar. Eu preciso disso, do contrário eu não seria um ser humano. Eu quero, por um momento, agir por mim mesma, sem pensar no bom senso, nas razões milenares, no certo e errado "inato", eu quero por um momento ser eu mesma, só um momento...

domingo, 15 de abril de 2012

Consegue escutar essa música? Escutar, não ouvir. Escutar é senti-la, deixe esse solo te possuir para que você então à possua. Solte seu corpo, a música está te levando agora. Grite se sentir vontade, ela é sua comandante, e ela comanda que você se liberte. Ela comanda que você solte, sem se preocupar com o bonito, tudo que tiver ai dentro de você. Pule se quiser, finja estar voando. Aumente o volume, coloque-a para repetir. Dance até o suor pingar. Cante junto, grite, fique rouco. Vá para o meio da multidão e sinta como estão todos além daqui, além do visível e sensível, estão todos possuídos por ela. Se você morrer agora não teria problema nenhum, iria dançar pela eternidade. Sentir esse agudo queimar-lhe a alma até o fim dos tempos. Sentir esse riff arrepiar-lhe até o ultimo fio de cabelo. Até o fim dos tempos.

O Fim

 Acordou e sentiu-se estranha. Não estou em minha cama, pensou. Estava largada num canto de qualquer lugar, parecido com tudo, menos com sua casa. Ao tentar se mover sentiu fortes dores no corpo acompanhada da percepção de suas roupas rasgadas. Esquecendo-se da dor olhou em volta e viu que não conseguia ver nada, havia apenas a luz do luar, iluminando o que parecia, uma casa cheia de fuligens, completamente devastada pela fúria do fogo. Quando tentou gritar por socorro sua voz não saiu como esperava, saiu algo parecido com o miado de um gato rouco. Tentou-se levantar, conseguiu, foi seguindo apoiando-se nas paredes.
 - Ei, o que está fazendo aqui? - Apareceu um homem à lhe perguntar.
 Com esforço ela sussurrou uma pergunta. - Quem é você?. -
 - Eu sou a Segredo Revelado. E você só deveria seguir nesse rumo depois de estar preparada. - Respondeu sem muita paciência.
 A garota caiu e tentou lembrar-se de suas últimas horas antes de acordar naquele lugar horrível. Haviam mortes, haviam gritos de angústia e medo nunca ouvidos, nunca atendidos. Havia um tapa na cara, umas palavras mal pensadas antes de proferidas e algumas traições. Já exausta e petrificada pelo medo, resolveu ficar por ali mesmo, pelo menos por um tempo. 
 - Você não pode ficar aqui, se quiser descansar volte de onde veio. - Cutucou-lhe um homem, batendo sua bota nas costelas da menina.
 A garota, um pouco melhor, conseguiu absorver as informações que lhes eram dadas. Um segundo depois olhou ao redor, com medo de encontrar o primeiro homem que encontrara na casa, relaxou-se ao constatar que ele não estava mais ali. Havia outro, o que logo lhe fez ficar tensa novamente, olhou em seus olhos e perguntou com a voz trêmula. - Qua... qual seu nome? -
 - Eu sou o Amigo Traidor. - Olhou-a no fundo dos olhos, sabendo dentro de si que ela sabia, e sentia, todo o significado do que ele era. 
 Tentando desviar o olhar indagou novamente, tentando controlar melhor a voz. - Eu perguntei o seu nome, não o que você é. - 
 - Garota insolente e burra você. Neste mundo, nosso nome é o que somos. De forma alguma o contrário. - Saiu andando, e, já um pouco longe falou alto, - Acho bom apressar-se, não sei quanto tempo ainda tem. - 
 Mais uma luta para levantar-se e manter-se em pé a garota prosseguiu. Num dos vários corredores encontrou uma criança chorando com a cabeça entre os joelhos. Aproximou-se lentamente, e por fim ajoelhou-se ao lado do menino. - O que um garotinho faz num lugar como esse? -. O garoto, com olhos enfurecidos, à olhou e rapidamente, fazendo sumir toda a inocência, - Eu sou esse lugar, todos que encontrar aqui são esse lugar. Você, mais do que ninguém, deveria saber disso. - A garota, já não tão assustada, talvez por estar compreendendo tudo, ou quase tudo, perguntou. - E além disso, o que você é? - O garoto sem tirar os olhos dela, segurou-a pelo rosto, com as duas mãos em suas bochechas e disse num sussurro. - Eu sou o Sonho Não Realizado. E você, é uma garota incompetente. - A garota levantou-se e seguiu andando, desta vez, com mais medo do que no início, já que se seguisse na ordem, o que viria agora, seria a causa do fim. 
 Depois de muitas horas andando sem parar, passando por lugares horríveis, com cheiros horríveis, chegou no que parecia ser o fim da casa. Havia uma porta no fim do corredor. Parecia ser a única iluminada. Haviam gritos, gritos de histeria, e os gritos tinham sua voz. Sentiu que suas lágrimas agora caíam de seus olhos sem que ela pudesse controlar. Seguiu andando, com os joelhos dobrando sem controle à cada segundo. E ao chegar na maçaneta suas mãos tremiam, sua força sumiu, o suor pingava. Sem sucesso, alguém de dentro parece ter aberto a porta. Ao entrar, viu a si mesma em flagelos, cada uma de si estava mais acabada que a outra. Eram arranhões e mordidas pelo corpo, tufos de cabelos sendo arrancados, roupas totalmente rasgadas, banhos por tomar. No centro de toda essa histeria, havia um homem, ela o reconheceu e logo começou a chorar descontroladamente. O homem estendeu-lhe a mão e pediu para que ela não tivesse medo. Como não ter? Ela aproximou-se e sem esperar a pergunta, o homem respondeu-lhe. - Eu sou a Morte do Seu Pai. - Ela, misturando-se às outras, começou a gritar e rasgar-se inteira. Abraçou o homem no centro da sala. E, sem aviso prévio, tudo ao seu redor parece ter explodido, apenas os dois ficaram intactos. Alguns segundos depois, e nada mais existia. Nem ele, nem ela. Nem o medo nem a coragem. Apenas o torpor.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

emaranhado de confusões

 Hoje escreverei em terceira pessoa. Pensou ela. Hoje, em vez de traço, usarei pontos. E em vez de eu, falarei e ela, ou ele. Acho melhor ela.
 Havia sido um dia diferente. Uma semana diferente. Não, o sol continuava à rachar-lhes a cabeça, e as aulas continuavam a arrastarem-se no tempo. Tinha porém, alguns poréns. Ela conheceu uma minhoca. Foi visitá-la em sua sala, quando acordada, nos seus sonhos mais profundos. - Isso é uma minhoca? - Não. Era uma taturana. - Minhoqueima. Prazer em conhecê-la senhora. À que devo a honra? - A taturana permaneceu calada. Em alguns segundos estavam todos rodeando-a para tirar fotos e conhecê-la melhor. - Ah, acabo de me lembrar. Você é aquela minhoca famosa. A viajante do tempo, da calçada da fama, dos sonhos e pesadelos das crianças. Ei, ela não sobreviverá lá fora. - Nunca mais. O sorriso dela havia ficado mais bobo, mais leve, mais faceiro. Ela não queria avançar, da mesma forma que queria muito descobrir qual seria o fim. 
 - Eu preciso de sua ajuda.  - Pediu à Joaquina.
 - Diga, verei o que posso fazer. - Respondeu.
 - Preciso que me ajude a entender-me. Sabe, eu li um cara que dizia que escrevemos sobre o que entendemos. Tenho eu algum problema? Se procurar em meus textos escritos e subscritos encontrará um emaranhado de confusões dúvidas ódios e amores. Tudo num só, tudo num momento, tudo separado, todo explicitamente implícito.
 - Olha, eu sou você, a única coisa que posso fazer, no momento, é rir. Já que você está feliz, e com vontade de rir.
 - O peixe da sabedoria matou-se. Ainda bem que ainda lhe tenho Joaquina. - Riram as duas.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Grite Comigo!


 Eu estive lá e eu posso dizer que estive. Não posso dizer com palavras, o faço e o posso com atos. Eu estive lá e se eu dissesse ninguém acreditaria. Eu estive no podre de minh'alma, nos encravos do meu pior, nos picos de minha loucura. E eu grito - Eu não sou louca, eu não sou louca. -, cuspi na cara do rei. Despenteei a rainha. - Eu não sou louca. Por favor, não me perdoe, eu sou louca. -. 
 Não posso dizer ao certo o correto e o errado. Eu sou louca e não sei onde é o limite entre minha sanidade e minha loucura. Eu sou normal. Eu não posso dizer o contrário. Eu faço. Ora com medo e coragem, ora sem medo e sem vergonha, nem na cara nem em lugar nenhum. Eu não me importo com quem morreu hoje. Nem com quem vai morrer. Muito menos com os vivos. Eu me importo com quem eu realmente posso dizer. Me importo com quem, de alguma forma, me entende. Me decifra, me mata, escarra, bate em minha face. Somos bons amigos, eu me importo.
 Não quero tapas nas costas. Eu quero escarros, eu quero murros. Eu quero gritos selvagens de uma loucura há muito reprimida. Eu quero gritar e quero que você grite comigo.

terça-feira, 10 de abril de 2012

isso deveria ser como é

 Não, eu não acredito em destino. Seria jogar uma vida inteira pela janela. Acredito em surpresas, acredito no inesperado, no acaso, tão casual...
 ... Tão casual o acaso, que, por ventura o é, não sendo. É como aquela doença, que, como diz ele que disse para ela que por fim me disse: "Só quem tem entende, quem não tem não faz a mínima ideia". Entende? É assim, assim o acaso tão combinado quanto o desencontro acidental. Mas, eu deveria morrer hoje. Não morri. Não morri pois não deveria morrer hoje.
 Olha, eu vou ali, olhar o céu, está chovendo e é lua cheia. Noite maravilhosa. Não posso perder tempo. Isso é como deveria ser. Eu escolhi assim. Poderia ter escolhido diferente, e então seria como foi. Mas não foi, é. É como deveria ser.
 A história não muda.

sábado, 7 de abril de 2012

Belle Époque de Hoje em Dia

Eu gosto do antigo, gosto do passado, do rústico, do amarelado e do preto e branco.
Eu vou da geração perdida, aos hippies. Passo pelos surrealistas indo à art pop. Durmo ouvindo Cole Porter e acordo ao som de Danzig. Sou tão antiga quanto contemporânea. Eu vivo o agora apreciando o anterior. Que lindo, que mágico, vamos viajar no tempo, não podemos parar. Nos tornamos nômades, amantes de todas as épocas. Lindas, maravilhosas. Todas épocas de ouro, todas.